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Pronto, essas são as peças do jogo, elas fazem bagunça demais, me envergonham, pode levar. Agindo como se eu não tivesse responsabilidade pelas minhas escolhas, quando tudo se embaralha eu fico brincando sozinha, brigando comigo mesma, olhando pro teto como se o que quer que seja fosse cair e milagrosamente se ordenar em forma de banquete para minha apreciação.

Quero a leveza necessária para desistir desse controle estúpido, porque a paralisia acontece só em mim. Os finais de semana, as lágrimas, as sessões em silêncio e a vontade de dormir o dia inteiro, essas coisas não afetam a ninguém mais. Elas continuam, eu é que parei. Sufoco minha voz, como se ela não fosse transparecer por todas as outras partes. Tsc.

Então eu penso que os acontecimentos não foram um início ou um final, mas sim um choque. Os momentos de lucidez não foram mais do que a lâmpada que pisca logo antes de queimar. E eu não podia mais reconhecer forma alguma na escuridão. Mas logo o olhar se acostuma, os contornos começam a aparecer e, bem, tudo que você tem que fazer é levantar e reacender a fonte. Revelar.
É exaustivo demais. O processo, a metodologia, os anexos, tudo muito cheio de respirações que eu não consigo dar. De pausas que eu me sinto inútil para fazer. Eu me sinto exaurida porque parece sem sentido, eu me sinto um lixo olhando para os meus pés tão simétricos na minha parede azul e analisando tudo o que não coube. Tudo o que não serviu para você. Às vezes eu sinto que perdi o ritmo, que sou completamente inferior e, no lugar de lutar para recuperar, me isolo ainda mais, morrendo de vergonha por não condizer com o modo lógico com que eu tento ver a vida e achar-que-sei-de-tudo. Tem esse grande abismo que eu apenas contornei, ao invés de unir as margens.

E é tão chato. Minhas tentativas inúteis. Minha euforia ilusória. As coisas que gritam pedindo atenção que eu ainda não sei dar. Os escapes nas coisas ridículas, nas simulações, na dedução do que leva tal coisa à uma outra, nas generalizações. Perde toda a espontaneidade. Isso me deixa frustrada. Qual a imagem que eu passo? Qual a imagem que eu quero passar? Ficar no meio é confortável, mas o quê eu realmente valorizo?

Been there before

  • Aug. 15th, 2009 at 3:05 AM
Que eu penso demais, isso eu sei. O que eu percebi é que minha ânsia de te falar coisas é, na verdade, necessidade de afirmar algo pra mim mesma. Meu subconsciente me lembra disso a todo momento. Conversas imaginárias são praticamente o único tópico das minhas viagens acordada. Eu sinto que não falei tudo que tinha pra falar, essas coisas que só saem quando eu tomo um pouco de (álcool) coragem, e justamente por isso não falei: tenho que repensar, porque quem elas mais atingem é sempre à mim.

Como se eu precisasse afirmar que sei pelo que passei. Que eu senti o vazio. Que eu reconstruí meu mundo inteiro mesmo que sem conseguir levantar do chão algumas vezes. Que eu aprendi que a comparação não leva à nada. Que eu aprendi a lidar com esse mesmo vazio. Que eu cheguei no fim do caminho depois de desacreditar que ele acabava. E que parou de doer, finalmente.

Como se mais alguém precisasse entender que eu lembro desse maldito sofrimento. Lembro do que eu superei antigamente por não gostar da minha situação atual, tão parecida. E eu leio o que eu escrevia, eu leio o que me ajudou a seguir em frente e, não que eu ache que não vá conseguir (como antes), mas parece que até naquela época eu era mais decidida e confiante. Não sei nem como, porque o desespero era bem maior. Mas é assim, eu releio e sempre me acho tão mais calma e controlada e divergente da raiva que eu sentia.

Talvez porque no registro as coisas tomem forma e ocupem determinados lugares, não sejam apenas vibrações energéticas se cruzando e confundindo. Mas pobre de mim quando acho que escrever organiza alguma coisa. Só alivia a vida.

Fotolog é meio mainstream e precipitado

  • Jul. 25th, 2009 at 3:50 PM
Why have you put so many things into my eyes that I can't see clear?
Who's paid you for telling me what I'm worth and run in fear?
It has been for me a strain to see already what have you done.
What is it in my eyes? A piece of broken glass?
Is this the time I should be on my knees for you?
Is this your way of telling another has been found?
Now I know, it's teargas in my eyes...


Edit: Ou não, né. Ou não.

.

  • Jul. 24th, 2009 at 9:49 PM
Eu acredito na naturalidade. Em deixar fluir. Em entregar e não esperar retorno. Em elevar. E deixar passar. Eu não quero traumas quanto a isso, porque eu sei que o que está na minha cabeça, agora, eu que causei. Não posso entregar além do que eu sinto. Não posso me mover além do que você me dá para acreditar. Eu acredito no respeito, no carinho e na confiança, todas as coisas que eu me neguei até então. Eu acredito em você. Eu acredito em mim. Sei que o que quer que aconteça também vai ser natural, como sempre foi. É aquela parte que eu não poderia negar do meu caminho. É uma das minhas partes que eu encontrei pelo caminho. E continuando ou largando, é sempre natural.
Eu lembro da primeira palavra que eu consegui ler - o barulho de um trem. Tchu. Isso na minha alfabetização por meio de sílabas na escola estranha que até hoje não entendo muita coisa. Depois, o primeiro livro inteiro que eu li foi sobre um menino branco e seu amiguinho escravo, e o orgulho que a criança meio solitária aqui sentiu, sentada naquela sala sozinha, não cabe descrever. Acho que os livros eram minha companhia, já que era difícil brincar por muito tempo com os coleguinhas. Lembro da coleção de capa em relevo do meu primo, de Ana Maria Machado e Ruth Rocha e Bruxa Onilda. Coleção Pingo d'Ouro. Devorar a pequena estante da sala da 1ª série era quase uma missão nas horas livres. E felizmente veio o estímulo da minha família. Quase todo final de semana era obrigatório passar na livraria e, assim, aos dez anos de idade, minha biblioteca orgulhosamente apresentava de Harry Potter à Fernão Capelo Gaivota, passando pela Fantástica Fábrica de Chocolates, Meu Pé de Laranja Lima, O Menino no Espelho e A Volta ao Mundo em 80 Dias.

Nessa época eu também era praticamente a única que ainda visitava a Gibiteca que minha turma fez no colégio. Lembro de inúmeros recreios lendo e relendo principalmente a Turma da Mônica, juro que tentei X-Men e Tio Patinhas, mas não deu. Das revistas eu lembro da Terra, Superinteressante, National Geographic e uma que tinha um papel meio esquisito, mas ilustrações legais e linguagem divertida. Jornal eu nunca gostei, mas admito que minha maior diversão no início do ano era ler todos os textos ou trechos de textos do livro de português. E também lembro do meu desespero ao descobrir que nunca mais conseguiria passar pela rua sem entender o que eram letras, e nunca poderia controlar não ler o que não quisesse. De sinopse dos filmes à descrição de salgadinhos, na realidade o que eu menos queria era ficar sem ler.

Lembro bastante da casa da minha avó, tardes em que eu não aguentava mais ver televisão e passava deitada na poltrona dela, lendo. Ou na casa da minha outra avó, insistindo pro meu pai pegar os livros com fotografias de países pra ficar olhando enquanto os adultos chatos conversavam sobre coisas chatas. Essa obsessão por outras culturas remete à um livro da Unicef, que contava sobre crianças reais de várias partes do mundo, mas eu era particularmente encantada pela menina que vivia num castelo na Polônia. O livro das Virtudes para Crianças, o Volta ao Mundo em 52 Histórias e assim veio a fase de decorar as bandeiras dos países, de colecionar a Volta ao Mundo com Wally e iniciar minha amada coleção de pedras e minerais - oito caixas com amostras e quatro fichários com fascículos sobre cada uma, sua família, propriedades e outras coisas geográficas que opa, não me interessei muito. Ainda assim, até hoje lembro de nomes que as pessoas às vezes não fazem idéia da existência, como... hematita.

Lembro também das peças de teatro que fazíamos no colégio, onde eu era sempre a narradora porque, segundo a professora, lia bem. Uma delas foi baseada no livro Tudo Depende de Como Você Vê as Coisas, e desde então esse título nunca saiu da minha cabeça. Nem as ilustrações em nanquim tão simples e tão maravilhosas que, com certeza, mexeram com o meu espírito desenhista. Mas não vou falar dele, que é assunto para outro post. Com a formatura da 4ª série, nada mais adequado de presente para nós mesmos do que um livro contando nossas lembranças, biografia de cada um e uma parte da história que vivemos ali - a vantagem de estudar em uma sala com onze pessoas e uma das minhas relíquias favoritas.

As mudanças que começaram a acontecer nessa época me afastaram um pouco dos livros - a única coisa que eu queria ler eram os agradecimentos do Lance do Nsync, ou decorar todas as letras do Hanson - e nem ler em voz alta eu conseguia mais. Felizmente Capricho e afins só lia nas férias, com minha prima, acredito que o estrago teria sido pior se fosse frequente. Os livros que se seguiram em mais ou menos três anos foram Senhor dos Anéis, que levei mais de um ano e muitas tardes depois do colégio para terminar, O Hobbit, igualmente infindável, e O Silmarillion, que até hoje não terminei. Mas isso não me tornava menos viciada a ponto de entrar em êxtase com o anúncio do filme, e eu agora tinha um novo mal: os fóruns da internet. Opa, os blogs também.

E essa combinação me deixou longe das páginas e mais páginas que eu tanto adorava, mas me permitiu chegar até ela. Com suas observações além do tocável, suas visitas à biblioteca e a magia que sempre me encanta, me trazendo de volta pra onde eu sempre posso pertencer.




Doutrina dos livros certos 1: http://prataki.livejournal.com/39798.html

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I really wish these snakes were your arms

  • Jul. 5th, 2009 at 4:02 AM
Definir em que ponto a 'liberdade' não é apenas uma fuga. Essa é uma das frases que a Kori escreveu que me fica na cabeça porque é tão verdadeira que eu não sei a resposta.

O que eu costumava fazer era uma defesa contrafóbica. Pregar a frieza, morrendo de medo da solidão. Mais um mecanismo pra me fazer acreditar que não preciso do que grita, desesperadamente dentro de mim, por atenção. O que eu costumava fazer era encarnar o que me daria medo, facilitando a minha fuga assim que as dificuldades surgissem. E, geralmente, eram só as minhas dificuldades. Estruturado o plano, era só procurar a porta mais próxima, e voltar pra idealização de um amor que eu não conseguiria vivenciar, por puro morrer de medo.

Comportamento repetitivo e auto-destrutivo definido, eu tentei me enquadrar no que eu achava que mudaria tudo isso, mudar minha postura e minha visão sobre as coisas, mesmo que só no momento da nossa conversa - antes disso me comportei como antigamente. Mas aí me vem a surpresa. Me vem a atenção que era tudo que eu queria e, no fundo, o que eu não queria também.

Porque é muito mais fácil continuar na inércia, continuar com o conforto que eu conseguia e o falso controle dos meus sentimentos nessa saída pré-fabricada. Me vem a vontade suprema do meu ser, mas junto a dependência, a insegurança, os velhos cortes coçando e incomodando, temendo a mudança e a ansiedade advinda dela.

Desde então, toda vez que eu olho pro céu e ainda não acredito que isso tudo é real, as dúvidas retornam e tentam anular a energia. Parar. Me deixar imóvel. Me fazer baixar os olhos com lágrimas e palavras descontroladas. A dificuldade atual está aí: me controlar. Parar. Baixar os olhos somente porque a luz da obsessão é que está muito forte. Pensar. E me lembrar de que sim, é real, é a visão que eu quis e as chances que eu precisava. E só depende de mim não jogar tudo fora, não me esconder no canto de novo e não me negar por ser menos do que perfeita.

O que eu sinto é que esses últimos meses me deram o necessário pra superar esse agora. Tudo que eu li, tudo que eu vivenciei, todas as descobertas. E quando situações que nem a de ontem acontecem, eu quero é a coragem pra falar mais sobre isso, não simplesmente ignorar. Eu quero a coragem que eu sei que tenho, em algum lugar, pra transformar em crescimento tudo que eu ainda não sei lidar, tudo que eu temo e tudo que eu entrego.

1º de julho

  • Jul. 1st, 2009 at 12:55 PM
Parece que foi sempre assim, não teve início, nem fim, é só o meio, a eternidade embutida enquanto durar. É o sentimento que varre o resto, que apaga as obsessões do passado, que me faz melhor e maior e, realmente, eleva. É tão diferente da minha prisão. E parece que estivemos sempre aqui, em alguma outra dimensão, quem sabe, mas sempre aqui. Não houve nada mais natural, mais óbvio, mais claro. E ainda assim, demorei tanto pra descobrir. E ainda reluto em revelar mais, quase esgotar, entregar o que eu temo e ver suas mãos transformarem tudo em crescimento. Obrigada, obrigada, obrigada.

Esse post é um clichê

  • Apr. 24th, 2009 at 2:35 PM
E não me expressa exatamente. Mas vai, é uma tentativa, e é minha verdade. Em partes.



Merecer é uma palavra perigosa. Precisar é outra. Pouco a pouco, vou ficando sem figuras para o que eu sinto, para o que eu sei. São sempre símbolos, interpretar faz parte de raciocinar e, às vezes, queria que eu não o fizesse tanto, que eu não soubesse fazer, sei lá. Mas, sabendo, é difícil não criar as histórias, não merecer, não precisar. Não reencontrar uma velha história se repetindo, ou não saber lidar com uma nova, até ela se transformar na velha ou na constante que você nem percebe que existe.

Mas é sempre um pouco assim. Um pouco o centro do mundo, um pouco demais da minha mente, um pouco sobrando, um pouco que falta. Um mundo de 'quase'. A paz é tão difícil. E a paz não é a tranquilidade que eu pensava, aquela inércia, a falta de algo além que me motive. A paz é exatamente o contrário, é aquele momento em que você está exatamente onde queria estar. E eu bem sei como não há nada menos sem graça do que isso. O que eu pensava ser paz é somente agonia.

Essa agonia é frequente em mim. A necessidade. Eu disse que "precisar" era uma palavra perigosa porque come nossas entranhas, porque liquida a vida, porque cega e ensurdece. O que antes era um foco se torna difuso e não, não há o belo dia em que você percebe que se perdeu. Há apenas o dia em que você cai no escuro e não encontra respostas. Nem dos outros, nem de você, por mais que falem ou que seus pensamentos borbulhem. Porque é um vazio, são palavras de fumaça que deixam apenas odor nos cabelos, constante lembrança dessa realidade que se diz tão física. Fumaça.

Porém, o que mais me perturba é que, mesmo entendendo, mesmo sabendo disso tudo, eu continuo a precisar. Continuo a achar que mereço alguma ínfima coisa. E que a verdadeira paz milagrosamente chega, nem que só por um dia, ou só por uma hora, e não vai ser só o meu delírio. Nem o meu apego. Que eu vou saber lidar com as coisas que somem, com as mentiras que me contam. Com as ligações e as mãos lindas que seguram cigarros. Com a falta de um amanhã. Com a inexistência. Com a brincadeira. Com a vontade. E aceitar quem não me vê, sem precisar provar para ninguém o que eu sou, porque quem eu quero que me veja vai saber ver.

Personality Disorder Test

  • Apr. 1st, 2009 at 4:30 AM
Mais um ano depois


Disorder | Rating
Paranoid: High
Schizoid: Low
Schizotypal: Moderate
Antisocial: Low
Borderline: Moderate
Histrionic: High
Narcissistic: Moderate
Avoidant: Very High
Dependent: High
Obsessive-Compulsive: High

http://www.4degreez.com/misc/personality_disorder_test.mv

N.inguém

  • Mar. 3rd, 2009 at 4:04 AM
Eu sinto essas marcas, eu as vejo no espelho, revivo suas trajetórias na minha mente, mas a última coisa que elas me parecem ser é reais. Me lembro do teu peso, e da tua força e da rapidez, mas em mim não ficou teu gosto, muito menos teu cheiro na minha camiseta, ou a cor dos teus olhos. Da tua boca não saíram palavras bonitas.

Eu consumava o meu querer, mas na realidade armei contra mim e sem tanta surpresa me peguei. Alego que são as marcas que eu queria, cicatrizes para lembrar que foi real. E logo depois me contradigo, porque sei que elas não tiveram vida própria, foram uma violação que não imagino como me permiti acontecer. Porque eu permiti, eu sei. A dilaceração foi obra minha, o teu ser foi a arma que encontrei pelo caminho.

Nunca te perceberia como uma antes disto, eras mais uma relíquia a quem eu jurava me devotar, adorar, era um sonho que eu queria cada vez mais perto e mais perto e mais forte até que a colisão me machucasse. Eu acordei em seguida, duvidando de que a culpa tivesse sido tua, tão lindo e leve e quase transparente como eu sonhei. Te acordei do teu sonho para incorporar o meu, e percebi que eu é quem era frágil, o sangue congelado aconteceu só em mim.

Mas ele volta a correr. As manchas sempre amarelam, vacilam por entre meu tom de pele, vão dissipando os vestígios de que houve alguém, e não houve, realmente. Aquela noite era entre mim e eu.

Entremeio

  • Feb. 25th, 2009 at 3:38 AM
A sensação é sempre inexplicável quando não é a paz, ou a dor. É o anseio, a procura, a ansiedade. Cinza, sufocante, neblina sólida que ecoa mais sussurros do que gritos. Não se pode falar, compromete-se o destino se ele te ouvir, e eu quero sempre que ele ainda exista, como imaginei. Tomo cuidado com os passos, mas tenho que acreditar que mesmo nos caminhos tortos pode-se chegar onde se quer.

Essa neblina por vezes se dissipa, vislumbra uma morada brilhante ou uma bebida que te conforte nesse frio. Frio opaco e impregnante na pele, nos dentes, nos seus sapatos. Atrai e cintila, mas não há nada lá. Há, talvez, os gritos de quem já perdeu o rumo, e conselhos desconfiáveis de quem não se sabe. Há a dúvida e a incerteza, convulsionando, mas nunca explodindo de uma vez. O deserto. E o silêncio. Você apenas sente finas linhas, brancas, vibrando no ar, ondulando o seu café, única coisa quente que resta nessa sala de espera.

Mas o tempo lá somente vaga, não está voltado na direção certa: repete-se. Ele vaga com olhos vidrados, prestando atenção aos movimentos de bocas perdidas que proferem, excluem, condenam. O destino sempre ouve o desejo - desde que silenciosamente. E devagar.

Em todo caso, o café está sempre fervente.

Being

  • Feb. 22nd, 2009 at 3:17 AM
Eu idealizo, então eu sofro. Eu somatizo, daí transbordo só quando não deveria, pelas menores coisas possíveis. Eu sempre desabo, mas tenho mania de usar os destroços como adorno e me cortar com os pedaços enferrujados. Procuro muito, mas já disse, só me encontro no que eu imagino. E, no que conspiro, vejo o silêncio e a tempestade, e as folhas vermelhas do outono e a parede azul do meu quarto, sinalizando, sinalizando, sinalizando...

Janeiro

  • Feb. 12th, 2009 at 3:08 AM
Andando bêbada pela rua das Laranjeiras às 8 da manhã, retrato da decadência depois de te conhecer. Não queria me sentir turva nem errada, queria só saber o caminho certo, droga. Agora eu tenho que correr para chegar em casa, para tirar os sapatos que me machucam e acabar com a história da Cinderela, começar a da Rapunzel: castigo. Estou trancada no décimo andar dessa torre e não tenho mais nem cabelo para jogar pela janela. Tudo bem, é só uma semana. Uma semana me esforçando para não enlouquecer sabendo exatamente onde você está, sabendo que não posso sequer tentar alguma coisa. Cruel, porque todo mundo prefere o "não" à expectativa. Por favor, por favor, por favor, escolha alguma coisa. É tão agoniante ter que me controlar e não sonhar, não poder nem ouvir o que me calaria e deixaria imóvel de uma vez. Tão difícil não tremer esperando seu olhar que não me nota, tão difícil não gostar das garrafas vazias que distraem minhas mãos de te tocar, tão difícil tudo o que existe agora, depois de ver você nos meus sonhos, a noite inteira, e acordar despedaçando.
Como as nuvens em um dia de verão, desenlaçando-se com a menor brisa, assim se vai. E dói tanto, é tão difícil escolher por mim e não continuar entregando, entregando e entregando amor. Tão difícil quanto imaginar que talvez o mundo seja só isso mesmo e as nuvens não inspirem sonhos a mais ninguém. As coisas se desgastam e passam, ou deixamos passar, mas suas lembranças são leves, são aquelas que volta e meia aparecem e nos fazem sorrir, do nada, sumindo sem doer logo depois. Foi tudo de uma vez só, percepções que levaram anos para tomarem forma e precisam de atitudes que ainda não me acostumei.

02/2008

Stranger

  • Jan. 27th, 2009 at 12:23 AM
Preciso ouvir de mim as minhas palavras. Preciso voltar pra perto de mim para que elas façam sentido. Eu tenho escoado o tempo, assistido o sol se por de olhos fechados. Tenho procurado as luzes brilhantes mais uma vez, para que eu fique cega e insana e não me lembre, não me lembre de como era antes. Oras, só conheço o fim de semana passado, é o que me mantem de pé até o próximo. Faz tempo que me sinto distante, e tempo que me afasto de propósito, nem eu sei do quê, ou porquê. Vai ver são as lembranças que pesam... Lembranças de mim. Talvez eu me conheça ainda menos. Não, com certeza. Cada dia menos. Mas mais, cada dia mais convicta, cada dia mais determinada a me esquecer, para finalmente lembrar de mim. Ouvir de mim. Minha voz.

Naomi Wolf - O Mito da Beleza

  • Dec. 11th, 2008 at 9:48 PM
A luz é de fato a questão central a uma forma inata de ver a beleza que é partilhada por muitos homens e mulheres, se não o for pela maioria deles. Essa maneira de ver é o que o mito da beleza se esforça para reprimir. Ao descrever esse tipo de luz ou ao fazer com que a descrevam, as pessoas se sentem pouco à vontade, descartando-a rapidamente como sentimentalismo ou misticismo. Creio que a origem dessa negação não reside no fato de não vermos esse fenômeno, mas, sim, no fato de o vermos com tanta nitidez, e de que mencioná-lo em público ameaça algumas premissas básicas da nossa organização social.

Essa luz é uma prova incomparável de que as pessoas não são coisas. As pessoas "se iluminam", e os objetos não. Aceitar sua existência desafiaria um sistema social que funciona por designar algumas pessoas como mais coisificadas do que as outras e todas as mulheres como mais coisificadas do que todos os homens. Essa luz não é visível em fotografias, não pode ser medida numa escala de um a dez, nem ser quantificada num resultado de laboratório. No entanto, a maioria das pessoas tem consciência de que uma espécie de luz radiosa pode surgir de rostos e corpos, tornando-os verdadeiramente belos.

Algumas pessoas consideram esse brilho inseparável do amor e da intimidade, não captado por uma visão separada, mas como parte do movimento ou da calidez de um familiar. Outras pessoas talvez a vejam na sexualidade de um corpo; ainda outras, na vulnerabilidade ou no humor. Ele muitas vezes surpreende ao surgir no rosto de alguém contando uma história ou ouvindo um outro com atenção. Foram muitos os que observaram como o ato da criação parece iluminar as pessoas e que notaram como esse brilho envolve a maioria das crianças — aquelas a quem ainda não foi dito que não são bonitas.

É freqüente que nos lembremos de nossas mães como mulheres bonitas simplesmente porque esse brilho as iluminava para nossos olhos. Se é que se pode tentar alguma descrição geral, um sentido de inteireza parece estar envolvido, e talvez o de confiança. Aparentemente, para que se veja essa luz, é preciso procurar por ela. A poeta May Sarton a chama de "a pura luz que emana de quem ama."

Provavelmente cada um tem um nome diferente para ela e a percebe de forma distinta, mas a maior parte das pessoas sabe que, para elas, ela existe. O principal é que você a viu — na sua versão — e provavelmente ficou deslumbrado, entusiasmado ou atraído por ela; e que isso, segundo o mito, não faz diferença.

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